Barrys's Place, Ataúro, Timor-Leste.

Não foi a minha primeira travessia dos vinte e poucos quilómetros do estreito de Wetar, que separam Ataúro da ilha de Timor, contudo, o nervoso miudinho apertava o estômago minutos antes da partida, apesar das previsões otimistas de todos os sites de informações sobre o estado do mar, que acabaram por se confirmar, na ida e no regresso, proporcionando uma calma e agradável travessia com direito a café e água de côco, cortesia dos rapazes da MV Ataúro, uma das companhias que realiza o transporte para a ilha.

Pouco passava das dez da manhã e Díli desaparecia lentamente no horizonte atrás de nós enquanto, do outro lado, Ataúro se erguia orgulhosamente do mar, primeiro em tons de cinza, depois em cores mais garridas, permitindo adivinhar o detalhe das falésias e, por fim, a areia branca da praia. De quando em vez, o capitão agarrava os binóculos parecendo procurar vestígios de golfinhos e baleias piloto, escolta de luxo que tantas vezes acompanha estas viagens. Desta vez não se fizeram notar, o que não me preocupou já que ansiava pela sensação de pés descalços na areia que aconteceu cerca de duas horas após a partida.
 

Acertado o regresso com a tripulação, esperava-nos o almoço no Barry's Place, local onde ficaríamos durante os próximos dias, numa das várias cabanas de madeira e bambu que este espaço tem para oferecer na primeira linha da praia. Aqui, o calçado fica à porta, caminha-se descalço por todo o resort e o acesso à praia também dispensa algo mais que a pele descalça dos pés.
 

A praia foi nossa e, pontualmente, de alguns miúdos que por ali pescavam nos pequenos beiros. O azul postal, de outras vezes, não se fez notar com tanta intensidade devido às nuvens que cruzavam o céu, mas a brisa suave e o silêncio recortado pelo esbarrar das ondas na costa compensavam a perda e eu perdi-me durante horas na água tépida agarrado à fotografia e à contemplação, acordando a espaços com o som das embarcações a motor que timidamente se imiscuíam na paisagem. Ao fim da tarde, os pequenos capitães da areia deixavam o mar e acendiam uma fogueira onde preparavam alguns dos frutos da pescaria. Cheirava bem e abria o apetite.



Jantava-se cedo, produtos locais sublimemente preparados por hábeis mãos na cozinha do Barry. O chá e o café estão disponíveis vinte e quatro horas por dia e também não faltam as bebidas frescas. Retira-se a bebida e regista-se o furto numa folha de papel por lá esquecida, as contas fazem-se no final da estadia, num ambiente comunitário e de confiança entre todos. Há dias, um amigo disse que a sua filha se referira a este lugar como um resort de luxo para hyppies. Não estará longe da verdade.







Terminado o jantar não havia muito que fazer, apenas alguns jogos e livros disponíveis, bem como duas guitarras e um ukulele. Desta vez preferi sempre a calma do alpendre da cabana. Em frente, o mar escurecia e a noite acendia-se de estrelas por não haver lua. As pequenas ondas continuavam a bater na areia, embora já mal as visse sabia que estavam lá e sabia-me bem a sua melodia. Chamava o sono embalado na rede e por fim retirava-me para o interior, de onde só voltava a sair com os primeiros raios de sol da manhã, que entravam dourados no quarto pelas frestas da janela encostada à cama.

A vida é fácil no Barry's Place em Ataúro.




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